INFORMATIVO TÉCNICO REVISTA GLEBA

 Edição Setembro - 2001

CANA-DE-AÇÚCAR
Proteger o ambiente e continuar gerando empregos

O setor sucroalcooleiro vem enfrentando há algum tempo o sério desafio de cumprir a legislação ambiental e continuar gerando um grande número de empregos. Não é de hoje que se debate, sob a ótica ambiental, a questão do uso do fogo para a colheita da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo. As discussões resultaram na Lei n° 10.547/00, que estabeleceu o plano de queimadas no Estado, e no  Decreto n° 48.869/01, que regulamenta e concede a queimada da palha da cana-de-açúcar. Tal legislação cria obstáculos à farta utilização de mão-de-obra rural, uma vez que elimina a realização das queimadas, impossibilitando a colheita manual da cana manual. Desta forma, tornou-se irreversível o processo de mecanização, chamado de colheita da cana verde, que extinguirá grande número de postos de trabalho no setor, agravando o êxodo para as cidades.

A Lei n° 10.547/00 inseriu profundas transformações quanto ao uso agrícola do fogo no Estado de São Paulo. Regulamentada pelo Decreto n° 48.869/01, prevê a eliminação do fogo na colheita da cana no prazo de 20 anos, devendo ser realizada de forma gradativa, em conjunto com políticas de reciclagem e aproveitamento da mão-de-obra do setor sucroalcooleiro. Sob o ponto de vista social, verifica-se que a eliminação da queimada da cana vem forçando grande quantidade de trabalhadores que viviam da colheita da cana-de-açúcar a migrar para os centros urbanos ou para as frentes de ocupação de terras. Como conseqüência, os municípios das regiões canavieiras vêm sofrendo uma ocupação desordenada, com a criação de favelas e aumento da pressão sobre os órgãos de assistência social. Estes municípios não têm capacidade de oferecer postos de trabalho a todo este contingente de desempregados, que passam a viver de serviços informais, sobrevivendo muitos vezes na marginalidade. 

Em contrapartida, o setor sucroalcooleiro gera cerca de 1,52 milhão de empregos diretos e indiretos. Só a lavoura de cana é responsável pela absorção de cerca de 620 mil pessoas. A região Sudeste, que possui 80% da cana plantada no País, emprega cerca de 253 mil pessoas. O baixo nível de escolaridade destes trabalhadores é uma das maiores dificuldades enfrentada pelo setor: 71% dos empregados diretos na atividade lavoureira possuem até três anos de estudo e, dentro deste universo,  39% cursaram apenas um ano escolar. Estes número dimensionam o tamanho do problema na hora de descolar estes trabalhadores para outros postos de trabalhos no meio rural.

Não há comparação possível entre o desempenho da colheita mecanizada e os resultados obtidos com a colheita manual. Um trabalhador braçal colhe 6,0 toneladas de cana, em média, por dia, enquanto  a produtividade de uma máquina de colher cana pode chegar a 600 toneladas/dia. Os números  confirmam que a colhedora pode substituir 100 homens no campo. Trabalhos realizados pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (ESALQ) mostram que a mecanização diminuiria em 273.276 o número de empregos ligados diretamente à produção da cana, o que representa uma diminuição de 53% no total da mão-de-obra utilizada na cultura da cana-de-açúcar.

Mecanização da Colheita

Além dos problemas sociais, as mudanças impostas  pela preservação ambiental colocam o setor em alerta. A mecanização ou colheita da cana verde só pode  ser realizada em áreas com declives inferiores à 12%. Só no Estado de São Paulo, esta limitação inviabilizaria cerca  de 45% da área plantada de cana, ou seja, dos 2,8 milhões de hectares, aproximadamente um milhão estaria acima de 12% de declividade, sendo imprópria para a mecanização da colheita. Para se adequaram a nova legislação ambiental, os produtores de cana-de-açúcar devem vencer os problemas relacionados à economia de escala ou volume de produção a ser colhido. As colhedoras de cana verde tornam-se viáveis economicamente quando colhem acima de 60 mil toneladas, sendo considerado aceitável um volume em torno de 100 mil toneladas/safra. Como são poucos os fornecedores de cana-de-açúcar que conseguem atingir estes parâmetros, somente se tornariam economicamente viáveis se formassem  consórcios ou condomínios. Nestes casos, o mais razoável seria a organização de patrulhas mecanizadas, que terceirizam o serviço de colheita da cana.

Além destas questões econômicas, há outras de natureza técnica. A mecanização causa sérios problemas ao solo, podendo diminuir gradualmente a sua produtividade devido ao alto índice de compactação. Em alguns casos, o peso da máquina de colher cana pode ultrapassar 17 toneladas, o que, aliado à pequena superfície de contato, compromete drasticamente a brotação da soqueira, com significativa redução da vida útil do canavial.       

A manutenção da legislação em vigor no Estado de São Paulo tornará o pequeno e o médio produtores de cana dependentes de terceiros para realizarem a sua colheita. Em alguns casos, poderão  inviabilizar-se na atividade devido à falta de condições econômicas para assumir os custos da colheita mecanizada ou por não atingir os índices de produtividade mínimos recomendados. A questão da declividade também pode levar à falência as propriedades localizadas acima do nível recomendado para o funcionamento da colhedora.

Cana Verde

Todas as dificuldades da colheita da cana verde serão amenizadas com a  consolidação da geração de energia com a queima do bagaço da cana-de-açúcar pelas usinas. O desenvolvimento da co-geração energética exigirá um maior volume de palha para alimentar as caldeiras de vapor, transformando a venda da palha deixada no campo pela colhedora e da matéria seca da cana numa atividade rentável, que poderá diminuir os custos da mecanização da colheita e gerar considerável número de postos de trabalho para a retirada da palha do campo.

Futuramente, a palha, o ponteiro e o bagaço da cana-de-açúcar servirão para incrementar o calor necessário para a geração de energia nas usinas. Estudos indicam que a matéria seca deixada no campo com a colheita da cana verde, se levada para queimadas nas usinas, podem aumentar o poder calorífero da caldeira em cerca de 20%. O sistema seria simples: a palha e o ponteiro, que normalmente ficam no campo, seriam levados juntamente com a cana a para a usina onde, antes da moagem, sofreriam uma limpeza à seco, sendo compactados e para armazenamento e utilização na queima junto ao bagaço ou na época de entressafra de cana-de-açúcar.

Há vantagens, também, nos aspectos de campo, pois a colheita mecanizada com a realização da limpeza da palha à seco na esteira da usina tornaria mais simples o trabalho das colhedoras. Todo o conjunto de equipamentos utilizados pela colhedora para a limpeza a campo seria eliminado. Sem o uso de exaustores, ventiladores, cortadores de pontas e partes dos sistemas hidráulicos, o equipamento se tornaria mais simples e barato, dando mais eficiência e leveza à colhedora, o que reduziria também os gastos com  manutenção e reposição de peças.     

O que se propõe é uma discussão que envolva consumidores e fabricantes de colhedoras, de maneira a agilizar novos projetos de equipamentos que atendam às peculiaridades da atividade e às necessidades dos produtores de cana do Brasil. O objetivo da Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar da CNA é incentivar outras empresas com potencial para responder não só às expectativas dos produtores, com a diminuição dos custos do equipamento, como possibilitar a preservação ambiental.


 Edson José Ustulin
engenheiro-agrônomo, presidente da Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar

                              José Ricardo Severo
engenheiro-agrônomo, assessor técnico da Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar

 

 

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